Américo Martín

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Américo Martín

Américo Martín, 78 anos, é o caçula dos cinco filhos do chileno Luis Martín e da venezuelana María Estaba. Meteu-se na política aos 15 anos e, aos 19, já era torturado pela ditadura de Pérez Jiménez. Recebeu choques elétricos e foi submetido ao “ring”. O “ring” consiste em colocar o preso com os pés descalços sobre a estrutura metálica da roda de um carro, como na foto abaixo.

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O “ring”, tortura em que o preso fica descalço durante horas sobre a roda de um carro.

Advogado, jornalista e ex-guerrilheiro, Américo Martín detalhou uma única vez as torturas sofridas na prisão. Foi no primeiro dos dois volumes de suas memórias, Ahora es cuando.

410qEXGJ8hL._SY354_BO1,204,203,200_O sofrimento provocado pelo “ring”, diz ele, em nada se compara à dor e os efeitos dos choques elétricos aplicados pelos torturadores.

Américo integrou a esquerda radical do partido Ação Democrática (AD) até optar pela luta armada contra o governo de Rómulo Betancourt, desta vez como militante do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Em 1971, aceitou a proposta de pacificação apresentada pelo presidente Rafael Caldera. Foi congressista entre 1978 e 1983 e candidato a presidente da República pelo MIR, em 1978, quando obteve menos de 1% dos votos. O vencedor foi Luis Herrera Campins, do partido socialista-cristão COPEI, com 46,64% dos votos.

Na conversa com Américo Martín, ele comentou sobre a situação política do país. E respondeu assim a uma pergunta sobre como define o governo de Nicolás Maduro:

“É uma pergunta que deve ser feita a eles, pois eles não sabem o que são. Se eles não sabem o que são, pensamos que são um punhado de disparatados conspirando contra eles mesmos todos os dias. Não são socialistas, não são de esquerda. Socialismo como pretende este governo não aconteceu em parte alguma do mundo.

Eles são um governo pragmático com uma grande avidez de poder, um governo que confunde progresso com expropriação e estatização, que criou o mito das empresas nacionalizadas, apesar de todas as empresas nacionalizadas estarem dando prejuízo. Prejuízo. Todas as empresas metalúrgicas estão dando prejuízo. A indústria petroleira, que era do Estado e funcionava muito bem. É um problema no sentido prático. Se você nacionaliza a farinha de milho, uma produtora de farinha, e não produz milho, não produz farinha. A Venezuela não está comendo nem arepa. Nem arepa está comendo. Nem a salsicha significa tanto para os alemães como a arepa para o venezuelano.”

Em tempo: arepa é uma espécie de pão feito com farinha de milho, supostamente de origem andina, e alimento básico na dieta do venezuelano.

Sobre o futuro do presidente Nicolás Maduro, ele diz que tudo dependerá das negociações que vierem a acontecer.

“Se Maduro aceitar o revocatório, vamos ter que negociar. E o que te preocupa, Maduro? O que vai acontecer com você? Ele sabe que vai perder. O que vai negociar? Será linchado? E que vão fazer comigo? Me entregarão aos Estados Unidos? Não, claro que não. A Constituição da Venezuela proíbe entregar à Justiça de outro país um nacional. Não vamos extraditar nenhum venezuelano. Nem o pior deles. É preciso negociar. Claro, sua importância dependerá dos votos que consiga. As ações judiciais seguirão o devido processo. Se não há provas suficientes, tem seu pleno direito de sair em liberdade. Não convém a ele renunciar, porque isso também vamos negociar. Imagine que você é Maduro. Veja, Maduro, quer renunciar? Quer eu eu redija o discurso da renúncia? Um homem que se sacrifica por seu país, que o faz em nome da Venezuela, para evitar a violência, pensando apenas na Venezuela. Meu interesse é o interesse da nação e por essa razão coloco meu cargo à disposição. Se renuncia também tem que negociar. Mas negociará também por sua mulher. E sua mulher significa seu sobrinho. E o sobrinho é a Justiça gringa.”

Em tempo: dois sobrinhos da primeira-dama da Venezuela foram presos no Haiti e levados para os Estados Unidos para serem julgados por tráfico de drogas. Para saber mais, clique aqui.

A Venezuela passa por um momento de extrema gravidade. A crise econômica talvez seja a pior da história. Falta comida, o desemprego é alto e a criminalidade crescente. Passei a última semana de agosto em Caracas, realizando entrevistas para o livro. As enormes filas nas portas dos supermercados chamam a atenção. Como bem me destacou o ex-deputado Luís Díaz Salazar, as filas não são nem sequer para comprar alimentos, e sim para os venezuelanos tentarem levar alguma coisa para casa. No dia em que voltei para o Brasil, o motorista que me levou ao aeroporto me buscou no hotel às 5h15 da manhã. De lá ia para uma fila de supermercado, que abriria às 9h, para tentar comprar um pouco de arroz, macarrão e o que mais conseguisse.

A inflação na Venezuela deve ultrapassar os 700% este ano. Conseguir dinheiro vivo é mais um dos problemas para a população. O governo limitou os saques de bolívares ao equivalente a pouco mais de US$ 50 diários. Para complicar ainda mais as coisas, os bancos limitam as retiradas nos caixas automáticos ao equivalente a US$ 5, o que obriga os venezuelanos a realizar várias operações e a perder horas do dia em filas.

A cédula mais alta é a de 100 bolívares. A cotação na semana passada era de US$ 1 para 900 bolívares num dos mercados de câmbio mais favoráveis. Isso significa que as pessoas precisam carregar sacos de dinheiro para realizar pagamentos básicos. As pilhas de dinheiro abaixo representam os US$ 100 que troquei ao chegar ao país.

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O equivalente a US$ 100 em bolívares.

Para completar, o aumento da criminalidade. São quase diárias as notícias de sequestros, muitos dos quais terminam com o assassinato das vítimas ou das pessoas encarregadas de entregar o dinheiro do resgate.

Os venezuelanos me aconselharam a não usar o celular na rua, não tirar fotos e tampouco sair à noite. De fato, a partir das 20h o movimento de pessoas caminhando cai brutalmente. Numa noite, ao sair de uma entrevista, o carro em que estava foi abordado por meia dúzia de policiais de moto. Com armas em punho, nos obrigaram a descer do carro. Os policiais suspeitaram que éramos assaltantes. Desfeito o mal-entendido, fomos liberados, mas jamais esquecerei a imagem e a sensação de ter um revólver apontado para o rosto. Ali tive a consciência de como as tragédias acontecem.

Por tudo isso, os venezuelanos foram às ruas ontem pressionar pelo revocatório, instrumento que prevê um referendo para decidir sobre a permanência de Nicolás Maduro como presidente.

A ver.

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3 comentários em “Américo Martín

  1. Parece um pouco com o Brasil dos anos 1970, quando se trocava um saco de dinheiro por um quilo de feijão, letra que ficou famosa na voz de Beth Carvalho. E, mais tarde, na era Sarney, quando os preços mudavam de três a quatro vezes ao dia. Martin tem razão. O socialismo pregado por Maduro é criação sua (ou de Chavez), pois está sem base científica. Ou seja, de boas intenções o inferno está cheio. A complexidade das relações políticas (e geopolíticas) hoje requer amplitude de visão e esta não pode descartar a participação da sociedade, que é plural. Maduro, ao que parece, só ouve seus pensamentos e palavras e/ou de sua cozinha.

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    1. Avelino, e uma pena que tenha caído na manipulação de um guerrilheiro que esta agora a lado com os executores que torturaram ele.
      O problema na Venezuela é o capitalismo que é totalmente incompatível com o povo.

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  2. No ano 2002 na Venezuela a direita deu um golpe de Estado cruento e eles raptaram ao Presidente Chávez e eliminaram a constituição e muitas pessoas morreram. .Ele participou no golpe. Hoje na Venezuela há empresarios trabalhando com o governo, mas apenas uns poucos, mas poderosos, estam sabotando a economia , eles escondem produtos e os preços sobem excessivamente, os journals falam da Venezuela como o pior lugar do mundo e não é certo. Temos problemas, com certeza, como qualquer país, mas não é como falam. Lembrem, a queda dos preços do petróleo, não é feito por Maduro. E temos Democracia PARTICIPATIVA, o povo participa das toma da decisão, não é como no Brasil, que 61 senadores derrubaram um presidente com 54 milhões de votos. Nós não queremos isso!

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