Traumas de uma ditadura

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Julio Llanos Rojas

Estive em La Paz de domingo a sexta-feira da semana passada. Pouco tempo, é verdade, mas uma oportunidade para travar contato com pessoas com histórias fascinantes e que me apontaram caminhos igualmente fascinantes nessa jornada para conhecer um pouco da realidade boliviana.

Um dos relatos que mais me impressionou foi o de Julio Llanos Rojas, ex-preso político, vítima da tortura e lutador em defesa dos direitos humanos. O post anterior também foi sobre ele. Para ler, clique aqui.

Gravei três vídeos curtos com Julio. Neste, ele conta como sua família sofreu no período da ditadura, e os traumas psicológicos sobre a esposa e os três filhos.

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Julio Llanos Rojas

FullSizeRenderJulio Llanos Rojas não tem metade do dedo médio da mão esquerda. Sobre isso falaremos mais adiante. Faz mais de quatro anos que Llanos e um grupo de vítimas da ditadura boliviana (1964-1982) estão acampados em vigília em frente ao prédio do Ministério da Justiça, na Avenida Mariscal Santa Cruz, uma das principais da capital La Paz.

Desde o início do movimento, as barracas em que os integrantes do grupo se revezam foram atacadas, incendiadas, depredadas e 19 dos ativistas, boa parte com mais de 70 anos, morreram à espera que suas reivindicações sejam atendidas.

O grupo faz seis reivindicações ao governo da Bolívia:

  1. a criação de uma Comissão da Verdade, Justiça e Reparação;
  2. que os arquivos em poder das Forças Armadas referentes às ditaduras sejam desclassificados;
  3. o cumprimento da Lei 2.640, de março de 2004, que prevê o ressarcimento às vítimas da violência política em períodos de governos inconstitucionais;
  4. cumprimento de resoluções da ONU e do Comitê Contra a Tortura;
  5. revisão das decisões judiciais que consideraram as ações das vítimas desqualificadas, desestimadas e improcedentes;
  6. convocação para a apresentação de novas ações pelas vítimas que ainda não o fizeram.

Conversei com Julio Llanos na manhã da última quarta-feira, dia 17 de agosto, no acampamento improvisado em frente ao Ministério da Justiça. Ali estão expostos recortes de jornal com notícias sobre os crimes da ditadura, fotografias, os nomes das pessoas que morreram aguardando uma decisão do governo.

Julio Llanos passou diversas temporadas na cadeia, a maior parte durante a ditadura do general Hugo Banzer. Numa delas, perdeu parte do dedo médio da mão esquerda. No vídeo abaixo ele conta como foi a tortura que resultou na mutilação.

Ninguna mujer nace para puta

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Na minha passagem por La Paz, tive a oportunidade de conhecer o movimento feminista Mujeres Creando e sua base de operações, a Virgen de los Deseos. Ali, na calle 20 de octubre, entre Aspiazu y J.J. Pérez, na zona Sopocachi, mulheres fortes, feministas, anarquistas e combativas desenvolvem um trabalho de extrema importância na luta em defesa dos direitos humanos.

No vídeo abaixo, uma curta entrevista que fiz com Julieta Ojeda, responsável pelo Virgen de los Deseos, sobre a proposta de trabalho da organização.

O ambiente é muito interessante, e os grafites nas paredes transmitem a energia do processo criativo que ali se desenvolve.

Numa época em que  agressões contra as mulheres continuam a liderar os casos de violência em praticamente todo o mundo, o Mujeres Creando representa um marco no processo de conscientização de mulheres, que não precisam aprender sobre os abusos que sofrem no dia a dia, e sim desenvolver mecanismos de defesa e de reação para enfrentá-los.

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Na sala de tortura

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O lugar que mais me impressionou no Museo Memorias, em Assunção, foi a reprodução de uma cela de tortura. Os presos políticos eram afogados na banheira cheia de água com excrementos. No momento da tortura, o volume do rádio era colocado no volume máximo para abafar os gritos de dor e não chamar a atenção da vizinhança. Um boneco enrolado em panos e amarrado com correntes e arame farpado aumenta o drama.

A casa em que funciona o Museo Memorias foi sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministério del Interior, uma instituição criada em 1956 pela ditadura Stroessner para controlar os cidadãos considerados inimigos do Estado. Ali ficava o escritório do coronel americano Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para treinar as forças policiais e militares em técnicas de interrogatório. Foi assim que a casa se tornou uma prisão e centro de torturas.

Uma história da Bolívia

O ex-presidente da Bolívia Carlos Mesa tem uma extensa produção literária, com obras sobre cinema, história e política. Em 2009, ele apresentou a série documental de 24 episódios Bolivia Siglo XX, um registro valioso da história do país.

Abaixo está o primeiro episódio. Os demais podem ser assistidos em sequência no Youtube.

Os arquivos do terror

Os arquivos do terror são o conjunto de documentos encontrados em dezembro de 1992 numa sala do Departamento de Producciones de la Policía de la Capital y la Sección Técnica del Ministério del Interior, um órgão técnico que funcionava num prédio na periferia de Assunção. São considerados, até hoje, a maior prova da existência da Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul, e dos crimes praticados pelo regime do general Alfredo Stroessner contra milhares de paraguaios e estrangeiros.

Hoje sob a custódia do Judiciário do país, os documentos organizados no Museo de la Justicia, Centro de Documentación y Archivo para la Defensa de los Derechos Humanos são considerados Memória do Mundo pela Unesco. Estão disponíveis para quem quiser pesquisá-los. Não há formulários a preencher, requerimentos a enviar e nem agendamentos a fazer. Ou seja, não há burocracia. Basta chegar ao museu nos horários de funcionamento para ter acesso ao material.

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Rosa Palau, coordenadora do Museo de la Justicia

Quem coordena a equipe do museu é Rosa Palau, uma ex-professora de matemática que foi convidada a organizar a documentação, em 1992, está lá até hoje, zelando para que cada vez mais gente possa conhecer a história recente do Paraguai.

Além dos informes sobre detidos e torturas, os arquivos do terror contêm um precioso material relativo à Operação Condor. Na semana passada, gravei uma entrevista com Rosa Palau sobre o tema, em que ela explica desde o organograma da operação até a troca de presos entre os governos dos países do cone sul.

Museo de las Memorias

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Hoje fiz uma visita ao Museo de las Memorias, espaço gerenciado pela Fundação Celestina Pérez de Almada, nome dado em homenagem à primeira esposa de Martín Almada, falecida em 1974.

O conteúdo exposto ali é de extrema importância para o registro da história recente do país. Reproduzo o texto de apresentação do museu, que funciona na “casa da antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, instituição criada pela ditadura de Alfredo Stroessner, em 1956, para controlar a população considerada inimiga, dentro do marco da Doutrina de Segurança Nacional.”

Na casa dava expediente o coronel Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para capacitar as forças policiais e militares paraguaias em técnicas de interrogatório. Assim a casa se tornou um cárcere com quatro espaços dedicados à aplicação de torturas e um setor de celas.

Documentos encontrados nos “Arquivos do Terror”, em 1992, comprovam a origem, funcionamento e vinculação com a Operação Condor, assim como a existência de milhares de vítimas que sofreram torturas, violações, execuções e desaparecimentos forçados.

Numa das salas do museu estão alguns objetos de tortura, como esses abaixo, para machucar e arrancar as unhas dos presos:

A imagem mais impactante, no entanto, são as celas usadas para tortura.

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Reprodução de uma cena de tortura

Martín Almada foi torturado na cela. No vídeo a seguir, ele explica o que acontecia nos porões da ditadura.