Na sala de tortura

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O lugar que mais me impressionou no Museo Memorias, em Assunção, foi a reprodução de uma cela de tortura. Os presos políticos eram afogados na banheira cheia de água com excrementos. No momento da tortura, o volume do rádio era colocado no volume máximo para abafar os gritos de dor e não chamar a atenção da vizinhança. Um boneco enrolado em panos e amarrado com correntes e arame farpado aumenta o drama.

A casa em que funciona o Museo Memorias foi sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministério del Interior, uma instituição criada em 1956 pela ditadura Stroessner para controlar os cidadãos considerados inimigos do Estado. Ali ficava o escritório do coronel americano Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para treinar as forças policiais e militares em técnicas de interrogatório. Foi assim que a casa se tornou uma prisão e centro de torturas.

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Martín Almada

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Ficha criminal de Martín Almada

Martín Almada tem 79 anos e mora em Assunção, capital do Paraguai. Em 1974 ele foi preso pela ditadura de Alfredo Stroessner acusado de ligações com o grupo guerrilheiro argentino Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP) e de planejar a derrubada do governo. Passou três anos preso, seguindo o roteiro básico dos desafetos do regime.

As sessões de tortura tinham uma característica especial nos porões da ditadura paraguaia. Para abafar os gritos de dor das vítimas, os torturadores colocavam música brasileira em alto volume. A violência estendia-se também a Celestina, esposa de Almada à época. Os agentes da repressão telefonavam para que ela escutasse os gritos do marido.

A tortura psicológica imposta a Celestina não tinha limites. Uma noite, recebeu uma ligação pedindo que fosse buscar o cadáver do marido. Abalada por toda a situação, ela não resistiu à notícia e faleceu.

Almada ficou preso até 1977. Só foi solto depois de muita pressão de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos e de uma greve de fome. Libertado da prisão, obteve asilo no Panamá, viveu e trabalhou na França até retornar ao Paraguai, depois do golpe que derrubou Stroessner.

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Martín Almada e pesquisadores

Ativista dos direitos humanos, Martín Almada ganhou destaque internacional em 1992, quando recebeu um telefonema com informações sobre supostos documentos da ditadura paraguaia. Numa delegacia na periferia de Assunção, milhares de registros de prisões, torturas, assassinatos, fichas criminais de presos políticos e documentos da Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul, estavam abandonados numa sala.

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Carta-convite do governo chileno para a reunião que formalizaria a criação da Operação Condor

Os documentos ficaram conhecidos como Os Arquivos do Terror, e foram essenciais para esclarecer parte da história da ditadura Stroessner e suas ligações com outros governos militares da região.

O vídeo abaixo mostra o dia em que se chegou aos arquivos.

Almada e a esposa Maria Stella Cáceres Almada administram o Museo Memorias (Museo de las Memorias), que funciona na antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, criada em 1956 para controlar a população considerada inimiga do Estado.

Martín Almada nunca pegou em armas para lutar contra a ditadura. Não seria, portanto, um guerrilheiro clássico, mas terá seu perfil incluído no projeto Os Últimos Guerrilheiros porque sua luta, além de igualmente importante, valeu-se de outras frentes para ajudar na volta da democracia ao Paraguai.

#osultimosguerrilheiros

A tortura no Paraguai

livro stroessner- retrato de uma ditadura

A tortura era prática comum na ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989). Os agentes da repressão não distinguiam cidadãos anônimos de autoridades ou políticos. Não havia critério para alguém ser vítima.

O livro Stroessner: retrato de uma ditadura, de Julio José Chiavenato, que ilustra o post, relata alguns dos milhares de episódios ocorridos durante o regime do ditador.

Reproduzo abaixo caso ocorrido com o político Euclides Acevedo.

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Euclides Acevedo

Em dezembro de 1974, Euclides Acevedo, diretor do semanário El Pueblo, órgão semiclandestino do Partido Revolucionario Febrerista, acabara de chegar ao Paraguai, vindo da Inglaterra, onde estudava economia, para passar as festas de fim de ano com a família. Foi preso na rua por um ex-colega de faculdade e agente do regime Stroessner. Acevedo foi levado ao Departamento de Vigilância y Delitos. Segue seu relato conforme publicado no livro de Chiavenato:

“Ali me desnudam, me levam a um quartinho onde havia uma banheira, então vazia. Atam-me as mãos atrás das costas. Atam-me os pés. Começam previamente a açoitar-me perguntando onde estava o dinheiro que eu tinha trazido da Hungria. Querem que eu lhes dê nomes de dirigentes de um movimento subversivo ao que me acusam de estar ligado. Eu não posso dizer, eu não sei nada do que falam. Então começam a encher a banheira de água. Me fazem sentar à beira da banheira e, com um pontapé no peito, derrubam-me de costas. Começam a me submergir. Quando eu luto desesperado para respirar, eles me tiram um pouco e, logo em seguida, submergem-se de novo. Isso durante duas horas aproximadamente. Há um policial sentado na porta do quarto, com um papelzinho, fazendo-me perguntas sobre nomes, quem são os dirigentes do Partido, que instruções recebi em Cuba, que instruções recebi na União Soviética. Como não podia responder, começaram a esmurrar-me, sentado à beira da banheira. Comecei a sangrar continuadamente e a vomitar água. Os torturadores comunicam-se por telefone com os policiais de Investigaciones. Na sala contígua colocam um gravador com música barulhenta, para encobrir meus gritos, quando comecei a ficar desesperado. Esse tratamento foi aproximadamente até as 4 da manhã, tendo começado às 23h.

Então colocaram-se um eletrodo dentro do ouvido – e por isso fiquei surdo do ouvido esquerdo – e me dão choques. Golpeiam-se ainda com um cassetete de borracha na cabeça. Me torturam até as 4:45 da manhã. Aí, então, levaram-me, esgotado, quase morto, a Pastor Coronel, que exige minha confissão por escrito. Ele me diz que “escreva tudo”, tudo o que sei, e que ande depressa. Me diz: “não se faça de louco porque vou matá-lo aqui mesmo”. Me davam café para beber, muito café, nenhuma água: era para não dormir.

Na noite seguinte, seguiram com a mesma operação de torturas, só que agora só torturavam, não perguntavam mais nada. Açoite, banheira e picada elétrica. Depois me isolaram num quartinho e nada me perguntaram durante 15 dias, quando então me apresentaram um questionário idiota, que serviu para formar meu processo.

Estive em Investigaciones 57 dias; estavam presas quase 300 pessoas, num calor tremendo. De 1974 a 1976 passaram por Investigaciones cerca de 3 mil pessoas. Estive numa cela durante 27 dias, sem poder tomar banho. Superava-me muito o ouvido perfurado e minhas feridas não cicatrizavam. Depois de 57 dias fui transferido para a 3ª Comisaría, onde estão os presos políticos mais antigos do Paraguai. Na 3ª estive 10 meses sem ver a luz do sol. Depois de um mês ali, recebi pela primeira vez a visita de minha mãe. Podia recebê-la uma vez por semana e a visita durava cinco minutos.

E não podíamos conversar. Já não éramos torturados fisicamente, mas faziam nossa vida impossível. Depois de dez meses de convivência com patriotas que estavam há 17, 18 anos presos ali, fomos transferidos para a cadeia pública.

Fui condenado a 3 anos de prisão. Saí depois de 2 anos com “arresto familiar”: não podia sair de casa. Depois de 2 meses, o comissário informou-me que eu podia sair. Mas não tinha documentos…”

 

35 anos de terror

A TV Pública do Paraguai produziu três programas sobre a ditadura do general Alfredo Stroessner que merecem ser vistos por quem se interessa pela história da América Latina. A partir de entrevistas com ex-presos políticos, torturados, historiadores e cientistas políticos, a série “Los 35 años del Stronismo” explica como o ex-ditador construiu sua rede de poder que aterrorizou os paraguaios por mais de três décadas.

As prisões sem justificativa, os abusos, as torturas, as traições e a corrupção que permeavam a sociedade paraguaia estão no centro das discussões. Sem conhecer o que aconteceu com o Paraguai é impossível entender a realidade do país. Como complemento, recomendo o obituário de Stroessner publicado no jornal The New York Times.

Os três programas seguem abaixo. Foram indicação de Maria Stella Cáceres de Almada, esposa de Martín Almada, um dos personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros. Estarei com ele em Assunção em agosto, para uma série de entrevistas. Maria Stella e Martín criaram o Museo Memorias, cuja página no facebook merece uma visita.

Programa 1 – “Los 35 años del Stronismo”

Programa 2 – “Archivos del Terror”

Programa 3 – “Desaparecidos”