O golpe de Chávez, segundo Douglas Bravo

Em 1992, o então coronel Hugo Chávez participou de uma tentativa de golpe de Estado na Venezuela. Além de militar, Chávez integrava o Partido da Revolução Venezuelana (PRV), criado pelo ex-guerrilheiro Douglas Bravo. O golpe fracassou, Chávez, Bravo e vários outros foram presos.

Na entrevista a seguir, Douglas Bravo conta que o plano era outro, e que Chávez traiu os planos de “revolução popular” para tomar o poder.

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De quando Douglas Bravo fugiu da prisão

IMG_0109.jpgDouglas Bravo é um dos guerrilheiros mais destacados da Venezuela. Foi preso, torturado, viveu nas montanhas e agora, aos 84 anos, continua na jornada revolucionária.

No vídeo abaixo, ele conta como fugiu da prisão, em 1964.

Pompeyo Márquez

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Pompeyo Márquez e o cachorro Rocky

O jornalista e ex-senador Pompeyo Márquez foi colaborador das guerrilhas venezuelanas nas décadas de 60 e 70. Aos 94 anos, fala com uma voz rouca, tem dificuldade para articular algumas palavras  e uma tosse que o interrompe com frequência. Foi preso pela primeira vez aos 14 anos, por distribuir um manifesto em protesto pela morte de um estudante na Universidade da Venezuela. Integrante do Partido Comunista da Venezuela, foi comissário político do grupo guerrilheiro de Douglas Bravo, que operava na região da serra de Falcón.

Detido em 1964 pelo governo boliviano, escapou da prisão por um buraco cavado a partir de uma casa vizinha ao quartel onde Pompeyo estava preso. Ontem à tarde conversei com ele em sua casa, num bairro tranquilo de Caracas.

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O corpo e a saúde estão frágeis, mas os olhos atentos de Pompeyo brilham quando relembra a luta política contra as ditaduras na Venezuela.

Em busca dos guerrilheiros

Cheguei hoje cedo a Assunção e amanhã começo a série de entrevistas com Martín Almada para o livro Os Últimos Guerrilheiros. Estou num hostel na região central da cidade, numa área bem residencial, com poucos prédios e muitas casas. As ruas sem movimento nesse fim de tarde de domingo estão ainda mais vazias por causa da chuva que cai agora na capital paraguaia.
Gostaria de compartilhar com todos a alegria de estar aqui, realizando a primeira etapa do projeto. E registrar que esse momento só é possível graças à confiança e generosidade de todos os que apoiaram a viagem para recuperar a trajetória de três pessoas que fazem parte da história da América do Sul.
Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo são pessoas comuns, ordinárias, cujas escolhas pessoais as colocaram em situações extraordinárias. Enfrentaram a prisão, a tortura e a perda de parentes e amigos em busca de um ideal.
Confesso que nunca havia ouvido falar de nenhum dos três até começar a estudar o tema. Quanto mais leio e pesquiso, mais interessante acho a história deles e de seus países. Escrever Os Últimos Guerrilheiros é um mergulho profundo na história da América do Sul, desde a chegada dos europeus, o processo de partilha dos territórios, a colonização, as guerras de independência, a Guerra do Paraguai, a Guerra do Chaco, as guerrilhas nos países, os golpes e contragolpes que parecem não ter fim e com os quais ainda convivemos.
Cada um desses acontecimentos teve impacto profundo nos países e em seus povos. Impediram o crescimento, o acesso à educação e ao conhecimento essenciais para o desenvolvimento das nações.
Espero que a tarefa de reconstituir a trajetória de Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo contribua para jogar alguma luz sobre nossa história.
Apareçam sempre!

Douglas Bravo

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Douglas Bravo

Douglas Bravo, um dos personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros, é considerado o guerrilheiro mais famoso da Venezuela. Sua luta nos movimentos de esquerda começa em 1946, quando ele tinha apenas 12 anos e ingressa no Partido Comunista da Venezuela (PCV).

Em 1962, ele integra as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), criado pelo PCV como braço armado da Frente de Libertação Nacional (FLN).

No início da década de 1960, surgem vários grupos guerrilheiros no país, descontentes com os rumos seguidos pelo presidente Rómulo Betancourt. Político de esquerda, Betancourt se afasta dos ideais socialistas, adere à Aliança para o Progresso e passa a enfrentar forte oposição de grupos armados.

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Douglas Bravo nas selvas venezuelanas

Uma divisão no PCV resulta no rompimento com o líder cubano Fidel Castro e na expulsão de Douglas Bravo da organização. Em declarações públicas, Fidel refere-se ao venezuelano como “um autêntico combatente comunista”. Com alguns companheiros, Bravo cria o Partido da Revolução Venezuelana (PRV) e assume o comando das FALN.

Em 1973, o presidente Rafael Caldera praticamente elimina os grupos guerrilheiros na Venezuela. Três anos depois, já no governo de Carlos Andrés Pérez, as guerrilhas ressurgem por questões ideológicas. No centro das discussões estão as divergências em torno da distribuição dos lucros do petróleo.

Dois anos depois, Bravo retira-se da luta armada. Viaja a Paris para tratamento de saúde e só retorna ao país em 1977. Em 79, ele e outros guerrilheiros recebem indulto do governo. As atividades do PRV, no entanto, continuam.

Um dos grandes feitos de Bravo e seu partido foi infiltrar elementos nas Forças Armadas da Venezuela. Esses agentes atraíram militares para a causa guerrilheira. O mais famoso deles foi o então coronel Hugo Chávez, futuro presidente do país. Foi pelo PRV que Chávez, ao lado de Bravo, participou dos golpes de Estado frustrados de 4 de fevereiro e de 27 de novembro de 1992. Os dois foram presos e indultados no ano seguinte.

Desde o primeiro governo Chávez, em 1999, adotou uma postura crítica e de oposição ao ex-pupilo. Bravo chegou a acusar Chávez de neoliberal e burguês. Atualmente, o ex-guerrilheiro dirige o movimento Terceiro Caminho, uma evolução do PRV-FALN.

O começo

A ideia de escrever um livro sobre ex-guerrilheiros sul-americanos surgiu durante pesquisa para um projeto de documentário relacionado a movimentos de esquerda no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. As leituras me levaram à Junta Coordenadora Revolucionária (JCR), uma aliança entre grupos guerrilheiros de esquerda sul-americanos para financiar e organizar operações conjuntas de combate às ditaduras nos países do Cone Sul.

A Junta era formada pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), do Chile; o Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), da Argentina; o Ejército de Liberación Nacional (ELN), da Bolívia; e o Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros (MLN-T), do Uruguai. Os grupos foram dizimados pelas ditaduras, organizadas na Operação Condor. Boa parte de seus integrantes acabaram presos, torturados e mortos. Continuar lendo “O começo”