Em busca dos guerrilheiros

Cheguei hoje cedo a Assunção e amanhã começo a série de entrevistas com Martín Almada para o livro Os Últimos Guerrilheiros. Estou num hostel na região central da cidade, numa área bem residencial, com poucos prédios e muitas casas. As ruas sem movimento nesse fim de tarde de domingo estão ainda mais vazias por causa da chuva que cai agora na capital paraguaia.
Gostaria de compartilhar com todos a alegria de estar aqui, realizando a primeira etapa do projeto. E registrar que esse momento só é possível graças à confiança e generosidade de todos os que apoiaram a viagem para recuperar a trajetória de três pessoas que fazem parte da história da América do Sul.
Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo são pessoas comuns, ordinárias, cujas escolhas pessoais as colocaram em situações extraordinárias. Enfrentaram a prisão, a tortura e a perda de parentes e amigos em busca de um ideal.
Confesso que nunca havia ouvido falar de nenhum dos três até começar a estudar o tema. Quanto mais leio e pesquiso, mais interessante acho a história deles e de seus países. Escrever Os Últimos Guerrilheiros é um mergulho profundo na história da América do Sul, desde a chegada dos europeus, o processo de partilha dos territórios, a colonização, as guerras de independência, a Guerra do Paraguai, a Guerra do Chaco, as guerrilhas nos países, os golpes e contragolpes que parecem não ter fim e com os quais ainda convivemos.
Cada um desses acontecimentos teve impacto profundo nos países e em seus povos. Impediram o crescimento, o acesso à educação e ao conhecimento essenciais para o desenvolvimento das nações.
Espero que a tarefa de reconstituir a trajetória de Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo contribua para jogar alguma luz sobre nossa história.
Apareçam sempre!
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Loyola Guzmán

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Loyola Guzmán

Loyola Guzmán tinha 21 anos quando conheceu Che Guevara. Era janeiro de 1967, na região de Ñancahuazú. O contato com o revolucionário argentino foi decisivo para Loyola continuar na luta armada. A luta armada, afirmava Che, era o verdadeiro caminho para se construir uma sociedade diferente, e não as eleições. O discurso do líder da revolução cubana tinha um apelo enorme junto ao grupo de jovens guerrilheiros. Embarcaram todos na jornada que terminaria no dia 8 de outubro do mesmo ano, quando Che foi capturado e assassinado por forças do exército boliviano e da CIA.

Quando encontrou Che na selva, Loyola integrava o Partido Comunista Boliviano. Apesar de ele estar disfarçado e insistir em ser chamado Ramón, ela sabia quem ele era. Depois de um encontro estratégico na região usada pela guerrilha, Loyola recebe ordens de voltar a La Paz com a missão de levantar recursos para financiar o movimento e recrutar militantes.

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Che Guevara e Loyola Guzmán na selva boliviana.

Loyola e seu grupo na capital fariam contato com Che Guevara por meio de um mensageiro, e não fariam qualquer operação militar sem ordens diretas dele. O mensageiro, no entanto, foi preso e o grupo perdeu contato com Che.

Logo depois Loyola foi capturada e tentou se jogar por uma janela durante um interrogatório. Torturada, foi condenada por apoiar a guerrilha. Ela soube da morte de Che na prisão. Libertada, Loyola passou a atuar na defesa dos Direitos Humanos e até hoje participa ativamente da vida política da Bolívia.

Loyola Guzmán, de 73 anos, é uma das personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros. Estarei com ela em La Paz a partir de 14 de agosto.

O começo

A ideia de escrever um livro sobre ex-guerrilheiros sul-americanos surgiu durante pesquisa para um projeto de documentário relacionado a movimentos de esquerda no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. As leituras me levaram à Junta Coordenadora Revolucionária (JCR), uma aliança entre grupos guerrilheiros de esquerda sul-americanos para financiar e organizar operações conjuntas de combate às ditaduras nos países do Cone Sul.

A Junta era formada pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), do Chile; o Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), da Argentina; o Ejército de Liberación Nacional (ELN), da Bolívia; e o Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros (MLN-T), do Uruguai. Os grupos foram dizimados pelas ditaduras, organizadas na Operação Condor. Boa parte de seus integrantes acabaram presos, torturados e mortos. Continuar lendo “O começo”