Museo de las Memorias

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Hoje fiz uma visita ao Museo de las Memorias, espaço gerenciado pela Fundação Celestina Pérez de Almada, nome dado em homenagem à primeira esposa de Martín Almada, falecida em 1974.

O conteúdo exposto ali é de extrema importância para o registro da história recente do país. Reproduzo o texto de apresentação do museu, que funciona na “casa da antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, instituição criada pela ditadura de Alfredo Stroessner, em 1956, para controlar a população considerada inimiga, dentro do marco da Doutrina de Segurança Nacional.”

Na casa dava expediente o coronel Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para capacitar as forças policiais e militares paraguaias em técnicas de interrogatório. Assim a casa se tornou um cárcere com quatro espaços dedicados à aplicação de torturas e um setor de celas.

Documentos encontrados nos “Arquivos do Terror”, em 1992, comprovam a origem, funcionamento e vinculação com a Operação Condor, assim como a existência de milhares de vítimas que sofreram torturas, violações, execuções e desaparecimentos forçados.

Numa das salas do museu estão alguns objetos de tortura, como esses abaixo, para machucar e arrancar as unhas dos presos:

A imagem mais impactante, no entanto, são as celas usadas para tortura.

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Reprodução de uma cena de tortura

Martín Almada foi torturado na cela. No vídeo a seguir, ele explica o que acontecia nos porões da ditadura.

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Em busca dos guerrilheiros

Cheguei hoje cedo a Assunção e amanhã começo a série de entrevistas com Martín Almada para o livro Os Últimos Guerrilheiros. Estou num hostel na região central da cidade, numa área bem residencial, com poucos prédios e muitas casas. As ruas sem movimento nesse fim de tarde de domingo estão ainda mais vazias por causa da chuva que cai agora na capital paraguaia.
Gostaria de compartilhar com todos a alegria de estar aqui, realizando a primeira etapa do projeto. E registrar que esse momento só é possível graças à confiança e generosidade de todos os que apoiaram a viagem para recuperar a trajetória de três pessoas que fazem parte da história da América do Sul.
Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo são pessoas comuns, ordinárias, cujas escolhas pessoais as colocaram em situações extraordinárias. Enfrentaram a prisão, a tortura e a perda de parentes e amigos em busca de um ideal.
Confesso que nunca havia ouvido falar de nenhum dos três até começar a estudar o tema. Quanto mais leio e pesquiso, mais interessante acho a história deles e de seus países. Escrever Os Últimos Guerrilheiros é um mergulho profundo na história da América do Sul, desde a chegada dos europeus, o processo de partilha dos territórios, a colonização, as guerras de independência, a Guerra do Paraguai, a Guerra do Chaco, as guerrilhas nos países, os golpes e contragolpes que parecem não ter fim e com os quais ainda convivemos.
Cada um desses acontecimentos teve impacto profundo nos países e em seus povos. Impediram o crescimento, o acesso à educação e ao conhecimento essenciais para o desenvolvimento das nações.
Espero que a tarefa de reconstituir a trajetória de Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo contribua para jogar alguma luz sobre nossa história.
Apareçam sempre!

Martín Almada

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Ficha criminal de Martín Almada

Martín Almada tem 79 anos e mora em Assunção, capital do Paraguai. Em 1974 ele foi preso pela ditadura de Alfredo Stroessner acusado de ligações com o grupo guerrilheiro argentino Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP) e de planejar a derrubada do governo. Passou três anos preso, seguindo o roteiro básico dos desafetos do regime.

As sessões de tortura tinham uma característica especial nos porões da ditadura paraguaia. Para abafar os gritos de dor das vítimas, os torturadores colocavam música brasileira em alto volume. A violência estendia-se também a Celestina, esposa de Almada à época. Os agentes da repressão telefonavam para que ela escutasse os gritos do marido.

A tortura psicológica imposta a Celestina não tinha limites. Uma noite, recebeu uma ligação pedindo que fosse buscar o cadáver do marido. Abalada por toda a situação, ela não resistiu à notícia e faleceu.

Almada ficou preso até 1977. Só foi solto depois de muita pressão de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos e de uma greve de fome. Libertado da prisão, obteve asilo no Panamá, viveu e trabalhou na França até retornar ao Paraguai, depois do golpe que derrubou Stroessner.

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Martín Almada e pesquisadores

Ativista dos direitos humanos, Martín Almada ganhou destaque internacional em 1992, quando recebeu um telefonema com informações sobre supostos documentos da ditadura paraguaia. Numa delegacia na periferia de Assunção, milhares de registros de prisões, torturas, assassinatos, fichas criminais de presos políticos e documentos da Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul, estavam abandonados numa sala.

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Carta-convite do governo chileno para a reunião que formalizaria a criação da Operação Condor

Os documentos ficaram conhecidos como Os Arquivos do Terror, e foram essenciais para esclarecer parte da história da ditadura Stroessner e suas ligações com outros governos militares da região.

O vídeo abaixo mostra o dia em que se chegou aos arquivos.

Almada e a esposa Maria Stella Cáceres Almada administram o Museo Memorias (Museo de las Memorias), que funciona na antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, criada em 1956 para controlar a população considerada inimiga do Estado.

Martín Almada nunca pegou em armas para lutar contra a ditadura. Não seria, portanto, um guerrilheiro clássico, mas terá seu perfil incluído no projeto Os Últimos Guerrilheiros porque sua luta, além de igualmente importante, valeu-se de outras frentes para ajudar na volta da democracia ao Paraguai.

#osultimosguerrilheiros

35 anos de terror

A TV Pública do Paraguai produziu três programas sobre a ditadura do general Alfredo Stroessner que merecem ser vistos por quem se interessa pela história da América Latina. A partir de entrevistas com ex-presos políticos, torturados, historiadores e cientistas políticos, a série “Los 35 años del Stronismo” explica como o ex-ditador construiu sua rede de poder que aterrorizou os paraguaios por mais de três décadas.

As prisões sem justificativa, os abusos, as torturas, as traições e a corrupção que permeavam a sociedade paraguaia estão no centro das discussões. Sem conhecer o que aconteceu com o Paraguai é impossível entender a realidade do país. Como complemento, recomendo o obituário de Stroessner publicado no jornal The New York Times.

Os três programas seguem abaixo. Foram indicação de Maria Stella Cáceres de Almada, esposa de Martín Almada, um dos personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros. Estarei com ele em Assunção em agosto, para uma série de entrevistas. Maria Stella e Martín criaram o Museo Memorias, cuja página no facebook merece uma visita.

Programa 1 – “Los 35 años del Stronismo”

Programa 2 – “Archivos del Terror”

Programa 3 – “Desaparecidos”

O começo

A ideia de escrever um livro sobre ex-guerrilheiros sul-americanos surgiu durante pesquisa para um projeto de documentário relacionado a movimentos de esquerda no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. As leituras me levaram à Junta Coordenadora Revolucionária (JCR), uma aliança entre grupos guerrilheiros de esquerda sul-americanos para financiar e organizar operações conjuntas de combate às ditaduras nos países do Cone Sul.

A Junta era formada pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), do Chile; o Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), da Argentina; o Ejército de Liberación Nacional (ELN), da Bolívia; e o Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros (MLN-T), do Uruguai. Os grupos foram dizimados pelas ditaduras, organizadas na Operação Condor. Boa parte de seus integrantes acabaram presos, torturados e mortos. Continuar lendo “O começo”