Na sala de tortura

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O lugar que mais me impressionou no Museo Memorias, em Assunção, foi a reprodução de uma cela de tortura. Os presos políticos eram afogados na banheira cheia de água com excrementos. No momento da tortura, o volume do rádio era colocado no volume máximo para abafar os gritos de dor e não chamar a atenção da vizinhança. Um boneco enrolado em panos e amarrado com correntes e arame farpado aumenta o drama.

A casa em que funciona o Museo Memorias foi sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministério del Interior, uma instituição criada em 1956 pela ditadura Stroessner para controlar os cidadãos considerados inimigos do Estado. Ali ficava o escritório do coronel americano Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para treinar as forças policiais e militares em técnicas de interrogatório. Foi assim que a casa se tornou uma prisão e centro de torturas.

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Os arquivos do terror

Os arquivos do terror são o conjunto de documentos encontrados em dezembro de 1992 numa sala do Departamento de Producciones de la Policía de la Capital y la Sección Técnica del Ministério del Interior, um órgão técnico que funcionava num prédio na periferia de Assunção. São considerados, até hoje, a maior prova da existência da Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul, e dos crimes praticados pelo regime do general Alfredo Stroessner contra milhares de paraguaios e estrangeiros.

Hoje sob a custódia do Judiciário do país, os documentos organizados no Museo de la Justicia, Centro de Documentación y Archivo para la Defensa de los Derechos Humanos são considerados Memória do Mundo pela Unesco. Estão disponíveis para quem quiser pesquisá-los. Não há formulários a preencher, requerimentos a enviar e nem agendamentos a fazer. Ou seja, não há burocracia. Basta chegar ao museu nos horários de funcionamento para ter acesso ao material.

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Rosa Palau, coordenadora do Museo de la Justicia

Quem coordena a equipe do museu é Rosa Palau, uma ex-professora de matemática que foi convidada a organizar a documentação, em 1992, está lá até hoje, zelando para que cada vez mais gente possa conhecer a história recente do Paraguai.

Além dos informes sobre detidos e torturas, os arquivos do terror contêm um precioso material relativo à Operação Condor. Na semana passada, gravei uma entrevista com Rosa Palau sobre o tema, em que ela explica desde o organograma da operação até a troca de presos entre os governos dos países do cone sul.

Museo de las Memorias

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Hoje fiz uma visita ao Museo de las Memorias, espaço gerenciado pela Fundação Celestina Pérez de Almada, nome dado em homenagem à primeira esposa de Martín Almada, falecida em 1974.

O conteúdo exposto ali é de extrema importância para o registro da história recente do país. Reproduzo o texto de apresentação do museu, que funciona na “casa da antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, instituição criada pela ditadura de Alfredo Stroessner, em 1956, para controlar a população considerada inimiga, dentro do marco da Doutrina de Segurança Nacional.”

Na casa dava expediente o coronel Robert K. Thierry, especialista enviado pelo governo dos Estados Unidos para capacitar as forças policiais e militares paraguaias em técnicas de interrogatório. Assim a casa se tornou um cárcere com quatro espaços dedicados à aplicação de torturas e um setor de celas.

Documentos encontrados nos “Arquivos do Terror”, em 1992, comprovam a origem, funcionamento e vinculação com a Operação Condor, assim como a existência de milhares de vítimas que sofreram torturas, violações, execuções e desaparecimentos forçados.

Numa das salas do museu estão alguns objetos de tortura, como esses abaixo, para machucar e arrancar as unhas dos presos:

A imagem mais impactante, no entanto, são as celas usadas para tortura.

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Reprodução de uma cena de tortura

Martín Almada foi torturado na cela. No vídeo a seguir, ele explica o que acontecia nos porões da ditadura.

Memoria y vida

O Paraguai tem um programa de rádio semanal em defesa dos Direitos Humanos. O Memoria y Vida é transmitido todas as terças-feiras pela rádio Fé y Alegría, ligada à ordem dos jesuítas. Ontem o programa completou sete anos de existência. Estive na emissora e conversei com o idealizador e apresentador do programa, Felipe Ortiz.

O massacre de Curuguaty

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Camponeses de Curuguaty protestam contra os companheiros assassinados

A luta pela terra continua no centro de grandes conflitos e está na raiz de diversos movimentos guerrilheiros na América Latina. No Paraguai, assim como no Brasil, as disputas entre pequenos agricultores e latifundiários estão longe de serem resolvidas. O caso que atualmente mobiliza a opinião pública paraguaia aconteceu em 2012, na localidade de Curuguaty, distante 240km de Assunção.

Em maio de 2012, camponeses ocuparam uma área pertencente ao Estado para protestar contra a falta de terras. Semanas depois, o governo determinou a saída dos agricultores, oferecendo-lhes terras em outro local. Ante a recusa das famílias, começaram os enfrentamentos com a polícia até o confronto em que morreram 11 camponeses e seis policiais. O episódio ficou conhecido como o Massacre de Curuguaty. Para saber mais, clique aquiaqui e aqui.

A partir daí, surgem diversas versões para o ocorrido. Os policiais alegam que foram emboscados pelos camponeses, e que entre eles havia integrantes do Ejercito del Pueblo Paraguayo (EPP), um grupo armado que atua em alguns distritos no noroeste do país.

O caso acabou contribuindo para a queda do então presidente da República, Fernando Lugo, e abriu uma crise política no país que está longe de terminar. Principalmente depois que a Justiça condenou 11 camponeses pela morte dos policiais. O episódio remete ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 1996 no estado do Pará. Dezenove trabalhadores sem-terra foram mortos. Dos 154 policiais militares denunciados pelo Ministério Público, apenas 2 foram condenados por homicídio doloso.

Desde então, familiares dos condenados estão acampados em frente ao prédio do tribunal. Há um grande movimento no país para que se reveja o caso e se reverta a condenação. o líder político Domingo Laíno, ex-preso político da ditadura de Alfredo Stroessner e ex-candidato à presidência do Paraguai, está à frente das manifestações.

Hoje, às 18h, houve um protesto das famílias dos presos em frente ao tribunal de Justiça. Laíno esteve lá e aproveitei para gravar um vídeo em que ele explica de forma sucinta o caso.

E abaixo um documentário sobre o massacre.

Em busca dos guerrilheiros

Cheguei hoje cedo a Assunção e amanhã começo a série de entrevistas com Martín Almada para o livro Os Últimos Guerrilheiros. Estou num hostel na região central da cidade, numa área bem residencial, com poucos prédios e muitas casas. As ruas sem movimento nesse fim de tarde de domingo estão ainda mais vazias por causa da chuva que cai agora na capital paraguaia.
Gostaria de compartilhar com todos a alegria de estar aqui, realizando a primeira etapa do projeto. E registrar que esse momento só é possível graças à confiança e generosidade de todos os que apoiaram a viagem para recuperar a trajetória de três pessoas que fazem parte da história da América do Sul.
Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo são pessoas comuns, ordinárias, cujas escolhas pessoais as colocaram em situações extraordinárias. Enfrentaram a prisão, a tortura e a perda de parentes e amigos em busca de um ideal.
Confesso que nunca havia ouvido falar de nenhum dos três até começar a estudar o tema. Quanto mais leio e pesquiso, mais interessante acho a história deles e de seus países. Escrever Os Últimos Guerrilheiros é um mergulho profundo na história da América do Sul, desde a chegada dos europeus, o processo de partilha dos territórios, a colonização, as guerras de independência, a Guerra do Paraguai, a Guerra do Chaco, as guerrilhas nos países, os golpes e contragolpes que parecem não ter fim e com os quais ainda convivemos.
Cada um desses acontecimentos teve impacto profundo nos países e em seus povos. Impediram o crescimento, o acesso à educação e ao conhecimento essenciais para o desenvolvimento das nações.
Espero que a tarefa de reconstituir a trajetória de Martín Almada, Loyola Guzmán e Douglas Bravo contribua para jogar alguma luz sobre nossa história.
Apareçam sempre!

Martín Almada

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Ficha criminal de Martín Almada

Martín Almada tem 79 anos e mora em Assunção, capital do Paraguai. Em 1974 ele foi preso pela ditadura de Alfredo Stroessner acusado de ligações com o grupo guerrilheiro argentino Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP) e de planejar a derrubada do governo. Passou três anos preso, seguindo o roteiro básico dos desafetos do regime.

As sessões de tortura tinham uma característica especial nos porões da ditadura paraguaia. Para abafar os gritos de dor das vítimas, os torturadores colocavam música brasileira em alto volume. A violência estendia-se também a Celestina, esposa de Almada à época. Os agentes da repressão telefonavam para que ela escutasse os gritos do marido.

A tortura psicológica imposta a Celestina não tinha limites. Uma noite, recebeu uma ligação pedindo que fosse buscar o cadáver do marido. Abalada por toda a situação, ela não resistiu à notícia e faleceu.

Almada ficou preso até 1977. Só foi solto depois de muita pressão de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos e de uma greve de fome. Libertado da prisão, obteve asilo no Panamá, viveu e trabalhou na França até retornar ao Paraguai, depois do golpe que derrubou Stroessner.

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Martín Almada e pesquisadores

Ativista dos direitos humanos, Martín Almada ganhou destaque internacional em 1992, quando recebeu um telefonema com informações sobre supostos documentos da ditadura paraguaia. Numa delegacia na periferia de Assunção, milhares de registros de prisões, torturas, assassinatos, fichas criminais de presos políticos e documentos da Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul, estavam abandonados numa sala.

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Carta-convite do governo chileno para a reunião que formalizaria a criação da Operação Condor

Os documentos ficaram conhecidos como Os Arquivos do Terror, e foram essenciais para esclarecer parte da história da ditadura Stroessner e suas ligações com outros governos militares da região.

O vídeo abaixo mostra o dia em que se chegou aos arquivos.

Almada e a esposa Maria Stella Cáceres Almada administram o Museo Memorias (Museo de las Memorias), que funciona na antiga sede da Dirección Nacional de Asuntos Técnicos del Ministerio del Interior, criada em 1956 para controlar a população considerada inimiga do Estado.

Martín Almada nunca pegou em armas para lutar contra a ditadura. Não seria, portanto, um guerrilheiro clássico, mas terá seu perfil incluído no projeto Os Últimos Guerrilheiros porque sua luta, além de igualmente importante, valeu-se de outras frentes para ajudar na volta da democracia ao Paraguai.

#osultimosguerrilheiros